Jornal
de Juazeiro, 28 de Julho de 1984
Este Juazeiro é o da Bahia e de Nossa
Senhora das Grotas, não confundir com o Juazeiro de Padim Cícero. Cidade
centenária, cantada e encantada em versos, cheia de alegria e fatos sociais.
Onde moureja a arte, gente inteligente, enfim, um presépio acadêmico de morenas
curtidas pelo sol, cujo corpo contido em linha de miss a desfilar na Rua
D’apolo com os sorrisos de amor.
Aqui não se fala em pobreza e tristeza. O
Rio São Francisco nos serve de colírio, impedindo a ilusão de ótica; na
caatinga não falta o forrobodó levado a bode e carneiro gordo ao som dos oito
baixos de Januário, pandeiro, violão, cavaquinho, portanto, todos os
instrumentos para os assustados. As cabrochas se deslocam léguas e léguas para
participar de bate-barriga com humor natural do nordestino, sem receio da
caipora (alma do mato), cascavel, jararaca, etc.
No centro da cidade a tristeza bate em retirada. A partir de quinta-feira a noite é criança.
Festa por todos os lados. É proibido se falar em pobreza. Sexta e sábado, por
exemplo, o dólar e o FMI ficam humilhados, pois nenhum madrugueiro bate-fofo,
isto é, deixa de ir às boites. Sabe-se que todo bêbado é rico e as notas de
cinco mil são de montão nas algibeiras.
Participe do Casarão; chegue cedo se quiser
pegar cadeira para sentar-se ou encontrar vaga no estacionamento para seu veículo.
Lá se curtem, pulam-se, dançam-se, tudo em um verdadeiro ambiente de respeito;
e, se não levar uma parceira não tem problema, pois dento da penumbra (ambiente
meio turvo), sempre sobra uma curtidíssima cocota. Valentia não tem guarida
naquela casa, pois o proprietário é gente boa e figura finíssima. Logo,
entreveros não têm lugar, ainda mais que Benedito, o proprietário é um
historiador, sempre com a venta cheia de torrado (rapé), passa a contar os
casos de seu primo Virgolino “Lampião” e de outros conterrâneos de Serra
Talhada, Pernambuco. O valentão se torna amigo de Benedito e recebe uma
“narigada” uma dose de Whisky importado na “valsa” de graça e tudo beleza.
Juazeiro tem de tudo, pois o Velho Chico,
além de inspirar poesia, tem o lema: “Aqui ninguém passa fome”. De fato existe
peixe à vontade: surubim, pirá, matrinchã, acari, piranha, etc.
O folclore é bem representado pelos Reis de
Boi, Grupo de Teatro Juá, etc. Professora Graciosa, Marta Luz, Esmelinda
Pergentino e outros são uma verdadeira cultura invejável que sustenta Juazeiro
na esteira do tempo.
A meninada frequenta a Sociedade Apolo e a
28 de Setembro, clubes dos antigos coronéis, senhores de bigodes de sopa,
caídos sobre os cantos da boca, em geral, quase sobre os lábios, imperando
respeito. Mas, evolução chegou mudando o tempo, democraticamente e, hoje, a
rapaziada tem acesso fácil aos clubes, e os saudosistas murmuram, talvez com
vontade de participar. Porém é tarde demais.
Na Praça do Senado, por volta das dez horas
se reúnem no Bar Zeca Diabú, alguns comerciantes, juntamente com os
“trabalhadores eternos”: “Batatinha, João Duarte e outros”. Todos saboreiam o
arranque: Aquino, Caribé, Boca Lisa e outras marcas de pinga. Zeca Diabú,
valente, chegado às pressas da Paraíba, de lambedeira na mão, corta o pedaço do
bode-assado e todos comem levado à birita; mas o Diabú não é tão brabo assim
como de pinta.
No horário das dez até às doze horas, chega
Valdecy, concorrente do Exu da Paraíba, a desfazer das iguarias do restaurante
do Zeca, dizendo que no seu restaurante serve galinha caipira com feijão de
corda, “é massa”. Zeca Diabú só botando tira-gosto de bode e carneiro e a conta
subindo. Aparece o Manicão carregado de azar, que sempre pede uma cerveja e diz
que está com úlcera e, na hora da conta, é Deus nos acuda!
Encontro, que se repete às dezoito horas,
todos os dias, faz parte de Benedito do Casarão, conhecido como tomador de
torrado, o consertador do mundo “Velho Cabinho”, Barão Enéias e Dr. Moacyr
Sapato Branco. É um verdadeiro barulho na hora do acerto das branquinhas,
“cachaça”, porém, o Zeca passa a ser deus, escondendo a sua valentia trazida da
Paraíba, pois o Cabinho tem uma palmatória, dizendo ele que é para gente ruim,
como se ele fosse uma autoridade arbitrária.
“A sua tensão está em quanto, Álvaro?” –
“Está em 18x15”. O cognominado Dr. Álvaro é impressionado com a morte e quando
não vende o seu produto Brahma, toma a sua própria tensão e a de seus amigos,
em face de sua irritação.
Dr. Álvaro é peça principal do folclore
juazeirense. Nas rodadas de bebidas se faz presente. Qual de seus amigos que
pede uma cerveja que não seja Brahma? A tensão do Dr. Álvaro sobe a ponto dele
procurar o Dr. Wilson Eulálio, às pressas, em busca de socorro, pois além de
bom médico é médium de incorporação.
Aos domingos, à beira do cais, toda essa
turma se reúne composta de mais amigos, Benedito da ótica, muito “gastador”, e
Dr. Marco Antônio, usineiro, enfim, uma série de amigos.
O César Bombo, concorrente de Zeca Diabú e
do rico Waldecy, prepara a buchada, piranha, tatu e a Caribé. Todos contam as
proezas da semana, política, negócios, e de vez em quando surgem na rodada
Etelvir Dantas, cumprimentando a turma “Diga Macho:”, fala de política, cana,
álcool bate papo com o pessoal, todos seus amigos.
Hoje é domingo, quem vai ao Cafona? Alguns
coroas se apresentam como mestre sala, dançarinos de primeira, e outros prefere
a roça de Dr. Álvaro, banho no Rio Salitre, etc. Todo esse acerto é na mesa de
dominó do bar de César Cão, diante das lambanças de Manicão e a agonia de
Barriquinha!
Não deixem de conhecer Juazeiro, terra boa
e de gente camarada!
Geraldo Dias Andrade
Livro: Minhas Percepções
Livro: Minhas Percepções
Texto digitado pela aluna Sara
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