terça-feira, 29 de maio de 2012

Parece que foi ontem


Conheça Juazeiro – II




Jornal de Juazeiro, 28 de Julho de 1984

    Este Juazeiro é o da Bahia e de Nossa Senhora das Grotas, não confundir com o Juazeiro de Padim Cícero. Cidade centenária, cantada e encantada em versos, cheia de alegria e fatos sociais. Onde moureja a arte, gente inteligente, enfim, um presépio acadêmico de morenas curtidas pelo sol, cujo corpo contido em linha de miss a desfilar na Rua D’apolo com os sorrisos de amor.
    Aqui não se fala em pobreza e tristeza. O Rio São Francisco nos serve de colírio, impedindo a ilusão de ótica; na caatinga não falta o forrobodó levado a bode e carneiro gordo ao som dos oito baixos de Januário, pandeiro, violão, cavaquinho, portanto, todos os instrumentos para os assustados. As cabrochas se deslocam léguas e léguas para participar de bate-barriga com humor natural do nordestino, sem receio da caipora (alma do mato), cascavel, jararaca, etc.
    No centro da cidade a tristeza bate  em retirada.  A partir de quinta-feira a noite é criança. Festa por todos os lados. É proibido se falar em pobreza. Sexta e sábado, por exemplo, o dólar e o FMI ficam humilhados, pois nenhum madrugueiro bate-fofo, isto é, deixa de ir às boites. Sabe-se que todo bêbado é rico e as notas de cinco mil são de montão nas algibeiras.
    Participe do Casarão; chegue cedo se quiser pegar cadeira para sentar-se ou encontrar vaga no estacionamento para seu veículo. Lá se curtem, pulam-se, dançam-se, tudo em um verdadeiro ambiente de respeito; e, se não levar uma parceira não tem problema, pois dento da penumbra (ambiente meio turvo), sempre sobra uma curtidíssima cocota. Valentia não tem guarida naquela casa, pois o proprietário é gente boa e figura finíssima. Logo, entreveros não têm lugar, ainda mais que Benedito, o proprietário é um historiador, sempre com a venta cheia de torrado (rapé), passa a contar os casos de seu primo Virgolino “Lampião” e de outros conterrâneos de Serra Talhada, Pernambuco. O valentão se torna amigo de Benedito e recebe uma “narigada” uma dose de Whisky importado na “valsa” de graça e tudo beleza.
    Juazeiro tem de tudo, pois o Velho Chico, além de inspirar poesia, tem o lema: “Aqui ninguém passa fome”. De fato existe peixe à vontade: surubim, pirá, matrinchã, acari, piranha, etc.
    O folclore é bem representado pelos Reis de Boi, Grupo de Teatro Juá, etc. Professora Graciosa, Marta Luz, Esmelinda Pergentino e outros são uma verdadeira cultura invejável que sustenta Juazeiro na esteira do tempo.
    A meninada frequenta a Sociedade Apolo e a 28 de Setembro, clubes dos antigos coronéis, senhores de bigodes de sopa, caídos sobre os cantos da boca, em geral, quase sobre os lábios, imperando respeito. Mas, evolução chegou mudando o tempo, democraticamente e, hoje, a rapaziada tem acesso fácil aos clubes, e os saudosistas murmuram, talvez com vontade de participar. Porém é tarde demais.
    Na Praça do Senado, por volta das dez horas se reúnem no Bar Zeca Diabú, alguns comerciantes, juntamente com os “trabalhadores eternos”: “Batatinha, João Duarte e outros”. Todos saboreiam o arranque: Aquino, Caribé, Boca Lisa e outras marcas de pinga. Zeca Diabú, valente, chegado às pressas da Paraíba, de lambedeira na mão, corta o pedaço do bode-assado e todos comem levado à birita; mas o Diabú não é tão brabo assim como de pinta.
    No horário das dez até às doze horas, chega Valdecy, concorrente do Exu da Paraíba, a desfazer das iguarias do restaurante do Zeca, dizendo que no seu restaurante serve galinha caipira com feijão de corda, “é massa”. Zeca Diabú só botando tira-gosto de bode e carneiro e a conta subindo. Aparece o Manicão carregado de azar, que sempre pede uma cerveja e diz que está com úlcera e, na hora da conta, é Deus nos acuda!
    Encontro, que se repete às dezoito horas, todos os dias, faz parte de Benedito do Casarão, conhecido como tomador de torrado, o consertador do mundo “Velho Cabinho”, Barão Enéias e Dr. Moacyr Sapato Branco. É um verdadeiro barulho na hora do acerto das branquinhas, “cachaça”, porém, o Zeca passa a ser deus, escondendo a sua valentia trazida da Paraíba, pois o Cabinho tem uma palmatória, dizendo ele que é para gente ruim, como se ele fosse uma autoridade arbitrária.
    “A sua tensão está em quanto, Álvaro?” – “Está em 18x15”. O cognominado Dr. Álvaro é impressionado com a morte e quando não vende o seu produto Brahma, toma a sua própria tensão e a de seus amigos, em face de sua irritação.
    Dr. Álvaro é peça principal do folclore juazeirense. Nas rodadas de bebidas se faz presente. Qual de seus amigos que pede uma cerveja que não seja Brahma? A tensão do Dr. Álvaro sobe a ponto dele procurar o Dr. Wilson Eulálio, às pressas, em busca de socorro, pois além de bom médico é médium de incorporação.
    Aos domingos, à beira do cais, toda essa turma se reúne composta de mais amigos, Benedito da ótica, muito “gastador”, e Dr. Marco Antônio, usineiro, enfim, uma série de amigos.
    O César Bombo, concorrente de Zeca Diabú e do rico Waldecy, prepara a buchada, piranha, tatu e a Caribé. Todos contam as proezas da semana, política, negócios, e de vez em quando surgem na rodada Etelvir Dantas, cumprimentando a turma “Diga Macho:”, fala de política, cana, álcool bate papo com o pessoal, todos seus amigos.
    Hoje é domingo, quem vai ao Cafona? Alguns coroas se apresentam como mestre sala, dançarinos de primeira, e outros prefere a roça de Dr. Álvaro, banho no Rio Salitre, etc. Todo esse acerto é na mesa de dominó do bar de César Cão, diante das lambanças de Manicão e a agonia de Barriquinha!
    Não deixem de conhecer Juazeiro, terra boa e de gente camarada!

Geraldo Dias Andrade
Livro:  Minhas Percepções


Texto  digitado pela aluna Sara

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