A carta que se perdeu
Antonila da França Cardoso
Na
escada do colégio, um papel passava de mão em mão entre risadas e pândega dos
estudantes. Depois de se divertirem, apontando barbarismos e cacografias, eles
o abandonaram nos degraus.
Recolhemos
o texto que tantas gargalhadas provocara e que agora passa a constituir o cerne
de nossas conjecturas.
Tratava-se
de uma carta perdida na rua. Aquelas mal traçadas linhas que, aqui pra nós,
eram mal traçadas mesmo, fora ditadas por um coração de mãe a seu filho
distante. Escrito em caligrafia de pessoa semi-alfabetizada, o texto oferecia
preciosas lições que longe estavam de ser motivo de deboche.
As
primeiras linhas falavam de suas saudades e da falta que ele fazia em casa. Depois
vinham os conselhos: que o filho procurasse viver bem, que fugisse das más
companhias, se aproximasse dos bons e convivesse em harmonia com o irmão. “Os
irmãos devem ser unidos”, preceituava. Pedia-lhe que fosse juntando seus
trocados, fazendo seu pé-de-meia para um dia ter um lugarzinho seu; que não se
descuidasse da saúde e se agasalhasse no frio para não pegar pneumonia – as
velhas recomendações de qualquer mãe amorosa.
Depois
narrava, em minúcias, todas as aperturas e dificuldades que estava
atravessando. Aluguel atrasado há alguns meses, ameaçava de despejo,
desemprego, falta de chuva, colheita perdida. Não havendo safra, não haveria de
onde tirar dinheiro. Esperava que ele a acudisse. Enquanto isso iria rezar uma
novena.
E
com a força da fé, sustentáculo dos que se colocam integralmente sob a
dependência divina, revela-se confiante em que seus problemas seriam resolvidos
com brevidade. Acreditava que a sorte iria mudar e contava como certo auxílio
que o filho ofereceria assim que
recebesse aquela carta.
No
fim, entre as lembranças de parentes, vizinhos e conhecidos, seguiam os pedidos
dos irmãos. Os pequenos esperavam os brinquedos e balas. A filha, menina-moça,
preferia uma surpresa: Alguma prenda escolhida a seu gosto para usar no Natal.
As
carecias daquela mãe aflita: a exposição dos problemas peculiares a uma família
pobre refletem um mundo injusto e sofredor e o drama miserável em que grande
parte da humanidade contracena.
Concluída
a leitura, as pressuposições. Mesmo que a carta houvesse seguido seu curso
natural, nada nos garante que todas as solicitações fossem contentadas, mas uma
resposta, uma palavra de esclarecimento já consolaria aquele coração
apreensivo.
Qualquer
justificativa ou desculpa sincera, no momento preciso, é bálsamo suave e conforta
mais que uma oferta apática, indiferente. Isso, entretanto, não lhe vai
acontecer porque a carta não chegará a seu destino, nem as solicitações, nem os
desejos, nem os bons votos, nem as esperanças de que seria portadora.
Papel
amarrotado na mão, ali permanecemos por
longo tempo.
No
pensamento, a antevisão de sua espera pacienciosa transformando-se gradualmente
em ansiedade, aturdimento e desencanto. Corações repassados de tristeza, mãos
vazias, planejamentos desfeitos, destinos alterados, desesperança, mentes
céticas – conseqüências de uma carta que se perdeu.
Juazeiro, 1974
Livro: Umas e Outras Crônicas
(texto
digitado com a colaboração da aluna Ana Beatriz Feitoza)

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