quarta-feira, 9 de maio de 2012

A carta que se perdeu


                 
                                            A carta que se perdeu
Antonila da França Cardoso

Na escada do colégio, um papel passava de mão em mão entre risadas e pândega dos estudantes. Depois de se divertirem, apontando barbarismos e cacografias, eles o abandonaram nos degraus.

Recolhemos o texto que tantas gargalhadas provocara e que agora passa a constituir o cerne de nossas conjecturas.

Tratava-se de uma carta perdida na rua. Aquelas mal traçadas linhas que, aqui pra nós, eram mal traçadas mesmo, fora ditadas por um coração de mãe a seu filho distante. Escrito em caligrafia de pessoa semi-alfabetizada, o texto oferecia preciosas lições que longe estavam de ser motivo de deboche.

As primeiras linhas falavam de suas saudades e da falta que ele fazia em casa. Depois vinham os conselhos: que o filho procurasse viver bem, que fugisse das más companhias, se aproximasse dos bons e convivesse em harmonia com o irmão. “Os irmãos devem ser unidos”, preceituava. Pedia-lhe que fosse juntando seus trocados, fazendo seu pé-de-meia para um dia ter um lugarzinho seu; que não se descuidasse da saúde e se agasalhasse no frio para não pegar pneumonia – as velhas recomendações de qualquer mãe amorosa.

Depois narrava, em minúcias, todas as aperturas e dificuldades que estava atravessando. Aluguel atrasado há alguns meses, ameaçava de despejo, desemprego, falta de chuva, colheita perdida. Não havendo safra, não haveria de onde tirar dinheiro. Esperava que ele a acudisse. Enquanto isso iria rezar uma novena.

E com a força da fé, sustentáculo dos que se colocam integralmente sob a dependência divina, revela-se confiante em que seus problemas seriam resolvidos com brevidade. Acreditava que a sorte iria mudar e contava como certo auxílio que o filho ofereceria assim que  recebesse aquela carta.
No fim, entre as lembranças de parentes, vizinhos e conhecidos, seguiam os pedidos dos irmãos. Os pequenos esperavam os brinquedos e balas. A filha, menina-moça, preferia uma surpresa: Alguma prenda escolhida a seu gosto para usar no Natal.

As carecias daquela mãe aflita: a exposição dos problemas peculiares a uma família pobre refletem um mundo injusto e sofredor e o drama miserável em que grande parte da humanidade contracena.

Concluída a leitura, as pressuposições. Mesmo que a carta houvesse seguido seu curso natural, nada nos garante que todas as solicitações fossem contentadas, mas uma resposta, uma palavra de esclarecimento já consolaria aquele coração apreensivo.

Qualquer justificativa ou desculpa sincera, no momento preciso, é bálsamo suave e conforta mais que uma oferta apática, indiferente. Isso, entretanto, não lhe vai acontecer porque a carta não chegará a seu destino, nem as solicitações, nem os desejos, nem os bons votos, nem as esperanças de que seria portadora.

Papel amarrotado na mão,  ali permanecemos por longo tempo.
No pensamento, a antevisão de sua espera pacienciosa transformando-se gradualmente em ansiedade, aturdimento e desencanto. Corações repassados de tristeza, mãos vazias, planejamentos desfeitos, destinos alterados, desesperança, mentes céticas – conseqüências de uma carta que se perdeu.

  Juazeiro,  1974

Livro: Umas e Outras Crônicas

(texto digitado com a colaboração da aluna Ana Beatriz Feitoza)



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