Encontro com a
saudade
Para festejar as bodas de diamantes
dos pais, eles retornaram à terra natal. Corações felizes confraternizam no
velho casarão dos avós. Filhos, genros, noras, netos, primos, sobrinhos e
afilhados. A fruição do encontro, a alegria
de se reverem, atualizarem a crônica familiar e as notícias da cidade.
Os que estão ausentes há 20 ou 30
anos impacientam-se por sair ás ruas, encontrar amigos, e matar as saudades.
E de imediato, espantam-se com as
diferenças entre o Juazeiro de seu tempo e o atual.
-Meu Deus! Como isso aqui mudou!
Esta área está muito diferente! Ficou bem melhor assim...
E começaram a percorrer as ruas e
avenidas, tentando localizar-se:
- Aqui não era o Bazar Royal? E ali, a loja do velho Morais? O Armarinho
Drubi, como cresceu!
E vão tecer comparações, buscando
pontos de referência dizendo aos mais novos como era a cidade no passado.
- Aqui na rua 15, exatamente onde
se construiu a praça Ivo Braga, existia uma quadra de futebol de salão onde um
time chamado Spartacus marcou a época.
E um mais antigo completa:
- Eu alcancei esse local antes da
quadra Alfredo Viana. Havia um areal e, em tempo de chuva, uma enorme lagoa. A
rua 15 não tinha placa, mas todos a chamavam Rua da Entrada.
- Isso mesmo, Entrada do Horto. Em
direção contrária, lá na esquina do velho Trajano, havia uma calçada bem alta
onde nos sentávamos em noite de lua para fazer serenatas, lembram? Naquela Outra, deixe-me pensar... acho que
era o quartel. Um velho casarão de dois andares que ruiu num dia de chuvas.
- É... não consigo lembrar, mais
falta alguma coisa na direção da Carmela Dutra...
- O tamarineiro! Que pena! Era um tamarineiro
secular, bem ao lado do Círculo Operário...
-
O lugar em que hoje está o Vaporzinho era um jardim. O jardim do cais.
Tinha fonte luminosa, bancos de mármore e umas florinhas lilases e brancas...
De repente, encontraram
conhecidos, companheiros de infância e juventude. E brotaram exclamações que
afagam o ego:
- Você não mudou nada! O tempo não
passou por você!
Junto com as informações vem o
interesse por outros amigos, colegas e moradores antigos. E diante da galeria
de seus contemporâneos, conferem os nomes dos que ainda estão aqui, dos que já
se transferiram para o andar de cima, entre espanto e zombaria:
- Esse cara ainda vive?!! Não acredito!
- Deve ter havido algum
cochilo no além, pois a classe dele já foi toda convocada!...
E dão gargalhadas irreverentes. De bem
com a vida, buscam um lugar onde possam refrescar a garganta e evocar registros
preciosos. O moleque que se esconde em cada um de nós revive entre as risadas
as brincadeiras, as peraltices de outrora. O futebol do Largo da Matança, os
banhos nos Angaris, as melancias que subiam a rampa de mão em mão para burlar o
pagamento, os assobios no ouvido do velho Isidro, os sucessivos bandos de
escolares indagando numa determinada porta: “dona, tem boneca?’, as imprecações
irritadas de uma velha resmungona, a carreira ruidosa dos garotos e, como não
podiam esquecer, os célebres episódios tragicômicos da noite em que os leões se
soltaram.
E vêm as lembranças das festas
populares, porque nosso povo sempre foi festeiro. Os pastoris e ternos em que a
moçada saía a dançar pelas ruas, com suas guirlandas e lanternas; os reis de
boi, as quadrilhas juninas, as rodas de S. Gonçalo e os congos.
Na passarela da história desfilam também as filarmônicas. Quem
esqueceria os tradicionais encontros em que cada uma mostrava seu vasto
repertório noite adentro, evitando ser a primeira a se retirar para não sair
derrotada? E o sorriso simpático e contagiante do velho Adauto, com aquela
pança, batendo o bumbo...
Agora recordam as querelas
carnavalescas. A rivalidade entre os clubes, as rainhas, a corte de Momo. Os
carros alegóricos do Sol, da Lua, das Estrelas...
- Você era da Apolo? Eu era da
Vinte-e-Oito!
O elemento feminino há de se
lembrar dos lindos fogos de artifício de “Seu Puba”, da lapinha primorosa de
dona Nazinha Rego, das novenas de Bela e Sinhá Dita, das procissões da
padroeira com seus andores artisticamente andornados pelas mãos de dona Guiomar
Barreto e da peregrinação da Bandeira do
Rosário... O transitório perenizado.
Em processo associativo surgem
novas reminiscências. As caminhadas domingueiras em cima da Banca, a festa que
eram as chegadas e saídas dos trens na majestosa estação da Leste. Os passeios
dançantes a bordo dos vapores da Viação Baiana do São Francisco e o apito
inconfundível do Barão de Cotegipe, que
atraía para o cais dezenas de pessoas sem compromisso de espera, apenas para
ver o vapor chegar... Alguns mais afoitos sentem falta até da rivalidade
acirrada entre juazeirenses e pretrolinenses que lotavam as canoas para
insultar-se no meio do rio, catando paródias impagáveis:
“ O cais de Petrolina não tem
balaustrada na, xi!
A rampa é o maior ponto de atração, xi!
.............................................................................
Por isso todos dizem com seu
orgulho pampa:
Vamos, vamos, vamos, vamos passear
na rampa”
Essa retrospectiva ressuscitará tipos
prosaicos: Maria Fonga oferecendo rendas e bicos de almofada, de porta em
porta, com voz anasalada, explicitando ingenuamente uma tabela de preços muito
original:
- Quem vai comprar renda de almofada?
Esta aqui custa dois mil réis, mas minha patroa disse que se o freguês chorar
muito é pra deixar por um e duzentos. Essa outra é um mil réis, mas o menor
preço é dois cruzados...
E Firmina, baixinha, toda
encurvada, soletrando: p-a-pa, r-a- ra –
Dona Maroca”.
Sinhá Júlia, Betu, Macumbô, alguns
loucos muito temidos pela criançada de outrora. Como olvidar a filosofia
etílica de Peixe Seco que, ao entornar algumas, proclamava: “Para mim, tanto
faz chover como lobrinar. Se eu gostasse
de nego, andava com um urubu debaixo
do braço.” Dezenas de “causos” arrancam novas risadas.
Satisfeitas as evocações
gostosas, acalmada a euforia, os visitantes quedam-se a contemplar a face atual
da cidade e ouvem informações, exposições, detalhes. A par com os belos traços,
crescimento e progresso, alguns lhe notam ainda um aspecto imaturo, preocupado
com obras de fachada, a desmanchar e refazer as mesmas praças, a construir sem
planejamento, a realizar com bases na improvisação – mazelas que afligem grande
parte das cidades brasileiras.
Mas eles estão em clima de festa
e não vão deixar que observações políticas empanem o momento tão especial.
Preferem apreciar a beleza da vista, o rio e o contraste entre as construções
modernas e a antiga arquitetura colonial. Querem beber seu chope, jogar
conversa fora, curtir a cidade os conterrâneos. Afinal esperaram mais de 30
anos pela gostosura desse encontro com a saudade.
Juazeiro,
1975.
Livro: Umas e Outras Crônicas
Antonila
da França Cardoso
(Texto digitado
pela aluna Ashley)

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