segunda-feira, 21 de maio de 2012

Lembranças Juazeiro-BA





Encontro com a saudade


              Para festejar as bodas de diamantes dos pais, eles retornaram à terra natal. Corações felizes confraternizam no velho casarão dos avós. Filhos, genros, noras, netos, primos, sobrinhos e afilhados.  A fruição do encontro, a alegria de se reverem, atualizarem a crônica familiar e as notícias da cidade.
             Os que estão ausentes há 20 ou 30 anos impacientam-se por sair ás ruas, encontrar amigos, e matar as saudades.
             E de imediato, espantam-se com as diferenças entre o Juazeiro de seu tempo e o atual.
             -Meu Deus! Como isso aqui mudou! Esta área está muito diferente! Ficou bem melhor assim...
             E começaram a percorrer as ruas e avenidas, tentando localizar-se:
             - Aqui não era o Bazar Royal?  E ali, a loja do velho Morais? O Armarinho Drubi, como cresceu!
             E vão tecer comparações, buscando pontos de referência dizendo aos mais novos como era a cidade no passado.
             - Aqui na rua 15, exatamente onde se construiu a praça Ivo Braga, existia uma quadra de futebol de salão onde um time chamado Spartacus marcou a época.
             E um mais antigo completa:
             - Eu alcancei esse local antes da quadra Alfredo Viana. Havia um areal e, em tempo de chuva, uma enorme lagoa. A rua 15 não tinha placa, mas todos a chamavam Rua da Entrada.
             - Isso mesmo, Entrada do Horto. Em direção contrária, lá na esquina do velho Trajano, havia uma calçada bem alta onde nos sentávamos em noite de lua para fazer serenatas, lembram?  Naquela Outra, deixe-me pensar... acho que era o quartel. Um velho casarão de dois andares que ruiu num dia de chuvas.
             - É... não consigo lembrar, mais falta alguma coisa na direção da Carmela Dutra...
             - O tamarineiro! Que pena! Era um tamarineiro secular, bem ao lado do Círculo Operário...
             -  O lugar em que hoje está o Vaporzinho era um jardim. O jardim do cais. Tinha fonte luminosa, bancos de mármore e umas florinhas lilases e brancas...
             De repente, encontraram conhecidos, companheiros de infância e juventude. E brotaram exclamações que afagam o ego:
             - Você não mudou nada! O tempo não passou por você!
             Junto com as informações vem o interesse por outros amigos, colegas e moradores antigos. E diante da galeria de seus contemporâneos, conferem os nomes dos que ainda estão aqui, dos que já se transferiram para o andar de cima, entre espanto e zombaria:
                 - Esse cara ainda vive?!! Não acredito!
                 - Deve ter havido algum cochilo no além, pois a classe dele já foi toda convocada!...
                 E dão gargalhadas irreverentes. De bem com a vida, buscam um lugar onde possam refrescar a garganta e evocar registros preciosos. O moleque que se esconde em cada um de nós revive entre as risadas as brincadeiras, as peraltices de outrora. O futebol do Largo da Matança, os banhos nos Angaris, as melancias que subiam a rampa de mão em mão para burlar o pagamento, os assobios no ouvido do velho Isidro, os sucessivos bandos de escolares indagando numa determinada porta: “dona, tem boneca?’, as imprecações irritadas de uma velha resmungona, a carreira ruidosa dos garotos e, como não podiam esquecer, os célebres episódios tragicômicos da noite em que os leões se soltaram.
              E vêm as lembranças das festas populares, porque nosso povo sempre foi festeiro. Os pastoris e ternos em que a moçada saía a dançar pelas ruas, com suas guirlandas e lanternas; os reis de boi, as quadrilhas juninas, as rodas de S. Gonçalo e os congos.
                Na passarela da história desfilam também as filarmônicas. Quem esqueceria os tradicionais encontros em que cada uma mostrava seu vasto repertório noite adentro, evitando ser a primeira a se retirar para não sair derrotada? E o sorriso simpático e contagiante do velho Adauto, com aquela pança, batendo o bumbo...
               Agora recordam as querelas carnavalescas. A rivalidade entre os clubes, as rainhas, a corte de Momo. Os carros alegóricos do Sol, da Lua, das Estrelas...
               - Você era da Apolo? Eu era da Vinte-e-Oito!
               O elemento feminino há de se lembrar dos lindos fogos de artifício de “Seu Puba”, da lapinha primorosa de dona Nazinha Rego, das novenas de Bela e Sinhá Dita, das procissões da padroeira com seus andores artisticamente andornados pelas mãos de dona Guiomar Barreto e da peregrinação da  Bandeira do Rosário... O transitório  perenizado.
                Em processo associativo surgem novas reminiscências. As caminhadas domingueiras em cima da Banca, a festa que eram as chegadas e saídas dos trens na majestosa estação da Leste. Os passeios dançantes a bordo dos vapores da Viação Baiana do São Francisco e o apito inconfundível  do Barão de Cotegipe, que atraía para o cais dezenas de pessoas sem compromisso de espera, apenas para ver o vapor chegar... Alguns mais afoitos sentem falta até da rivalidade acirrada entre juazeirenses e pretrolinenses que lotavam as canoas para insultar-se no meio do rio, catando paródias impagáveis:
                  “ O cais de Petrolina não tem balaustrada na, xi!
             A rampa é o maior ponto de atração, xi!
             .............................................................................
             Por isso todos dizem com seu orgulho pampa:
             Vamos, vamos, vamos, vamos passear na rampa”
             Essa retrospectiva ressuscitará tipos prosaicos: Maria Fonga oferecendo rendas e bicos de almofada, de porta em porta, com voz anasalada, explicitando ingenuamente uma tabela de preços muito original:
             - Quem vai comprar renda de almofada? Esta aqui custa dois mil réis, mas minha patroa disse que se o freguês chorar muito é pra deixar por um e duzentos. Essa outra é um mil réis, mas o menor preço é dois cruzados...
             E Firmina, baixinha, toda encurvada, soletrando:  p-a-pa, r-a- ra – Dona Maroca”.
             Sinhá Júlia, Betu, Macumbô, alguns loucos muito temidos pela criançada de outrora. Como olvidar a filosofia etílica de Peixe Seco que, ao entornar algumas, proclamava: “Para mim, tanto faz chover como lobrinar. Se eu gostasse de nego, andava com um urubu debaixo do braço.” Dezenas de “causos” arrancam novas risadas.
               Satisfeitas as evocações gostosas, acalmada a euforia, os visitantes quedam-se a contemplar a face atual da cidade e ouvem informações, exposições, detalhes. A par com os belos traços, crescimento e progresso, alguns lhe notam ainda um aspecto imaturo, preocupado com obras de fachada, a desmanchar e refazer as mesmas praças, a construir sem planejamento, a realizar com bases na improvisação – mazelas que afligem grande parte das cidades brasileiras.
               Mas eles estão em clima de festa e não vão deixar que observações políticas empanem o momento tão especial. Preferem apreciar a beleza da vista, o rio e o contraste entre as construções modernas e a antiga arquitetura colonial. Querem beber seu chope, jogar conversa fora, curtir a cidade os conterrâneos. Afinal esperaram mais de 30 anos pela gostosura desse encontro com a saudade.
                                                                                                                  Juazeiro, 1975.
Livro: Umas e Outras Crônicas
Antonila da França Cardoso



(Texto digitado pela aluna Ashley)

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