quinta-feira, 7 de junho de 2012

Algumas coisas mudaram




                                  Conheça Juazeiro - III

Jornal de Juazeiro, 14 de outubro de 1984

            Existe fé em tudo: Igreja, prece poderosa (bons investimentos), sessão espírita, mãe-de-santo, pai-de-santo, enfim, fique ciente que você está firme, curado, que nem é preciso ir para Camarinha (lugar onde o santo se afirma).
         Cidade acadêmica, cheia de mistérios, alegrias, artes, sábios; em tudo isto a fé está presente.    
           Hoje, a festa é a bordo no Vapor Saldanha Marinho, porém, a nave é no seco, sem enfrentar marolas (ondas). Onde se serve bem o surubim levado à Antarctica do Zezé Gomes, concorrente do Arvoredo da Brahma, este, doutor que se preocupa com a tensão sua e a da comunidade. (Não se separa do tensiômetro).
          A fé em tudo e em todos. Ela transpõe montanhas e as águas (Petrolina-Pernambuco) e a filosofia continuando!
         Juazeiro tem algumas praças, entre elas: Misericórdia, Bíblia e as conhecidas Do Boi e a Do índio. Nessa última está localizado o restaurante: Diz Que Tem, do amigo Costeleta, que veio da cidade de Andaraí, juntamente com as “crianças” Jair, Jurandy e Heraldo, que por ironia do destino, os (gordinhos) têm o sobrenome de Pinto, mas são tão “magrinhos”que devoram um carneiro mais rápido que um cardume de piranhas. São magrinhos mesmos!?
         “Costeleta, a turma lhe dá muito prego?” (comprar fiado e não pagar). Com o seu jeito peculiar, mansinho, característico de comerciante de gabarito, muito sorridente, Costeleta diz que é felizardo, pois tem a fé a padroeira Nossa Senhora da Glória, de Andaraí, sua terra natal, bem como, na estátua do índio defronte ao seu restaurante, apesar deste ser esquerdista (canhoto) e tem a seta voltada para o “Diz Que Tem”. Os usuários borrachudos (cheques frios) ficam com medo de uma flechada ao sair do seu estabelecimento, portanto, evitam dar “cano”.
         Em Juazeiro não há analfabetos, e, pelo contrário, várias faculdades, ótimos colégios,  inúmeros, públicos e particulares.
         Nos vestibulares do país, Salvador-Ba, Recife-Pe, por exemplo, o juazeirense está sempre na vanguarda; portanto, terra de doutores, filósofos e políticos.

         A filosofia já nasce com o juazeirense, sem preconceito, discriminação e outras bobagens. Anel de doutor é guardado para não dar o que falar! “Você engenheiro?” ”Sou, mas, nós também entendemos de Direito, Medicina, Engenharia, política e tudo enfim.” O Isaias, (O velho Cabo Malvadeza),  por exemplo,  é doutor geral: formado pela faculdade da vida e, efetivamente quem o conhece de perto o contrata imediatamente para impetrar um habeas-corpus em favor de qualquer paciente ”Hóspedes” do hotel (prisão) do delegado Samuel.
         Na Rua D’Apolo se vê de tudo: muitos operários da construção de Cristo, proezas de João Duarte, “energia do trabalhador” Batatinha e as conversas sobre os carnês dos aposentados do INPS, nas portas dos bancos, inclusive Maninho Palma, com a sua bolsa a tiracolo que José Duarte Dias lhe mandou da Argentina. “Maninho, como é conhecido, é aposentado como telegrafista, dos Correios e Telégrafos e diz-se surdo.” “Maninho!” “Fale alto que não estou escutando.” “Seu cunhado Zé Dias chegou de Londres” Estou ouvindo vem... Continue...!
         “Diga minha distinta!” O tratamento cordial do tenente Sobreira. “Eu agora vou cantar a Deusa da Minha Rua: Dó maior, maestro.” Sobreirinha, como gosta de ser chamado, tem faro de seresta e se intriga quando perde uma noitada. Com seu violão e a voz de tenor faz sucesso pelo Vale do São Francisco. “Oh! Velho, cante Chão de Estrelas!” “Velho uma cebola;” – retruca o tenor, que não admite os seus cabelos brancos e gosta de andar arrumado e perfumado, sempre com um sorriso alegre.

         Sobreirinha  faz seresta nos meios sociais. Aluga o microfone, canta e é bem aplaudido e não estoura as costas feitas à cigarra do sertão, graças a sua querida filha, vereadora  Lucinha Sobreira que o patrulha, mesmo com o calo no pé esquerdo e, prefere sentir a dor, usando o sapato apertado, mas o que importa é a boa elegância junto a seus eleitores.
         “Sou o Júnior! Coronel Cajarana. Sou o termômetro econômico.” Assim é como se apresenta o pecuarista, pedrista e plantador de melão e cebola, conhecido por (Coronel Cajarana). Quando ele fala em quebradeira, realmente as bases se tremem e o comércio se preocupa, porque, quando Júnior “bate fogo”, sem grana, a coisa não é de brincadeira. O Cajarana é de fato, versátil. Compra o que vê e o que não vê e paga religiosamente os seus compromissos. Só não deu certa uma aposta que fez com o pedrista Peixinho, pois, Júnior invocou que estava com o espírito de campeão Joaquim da Cruz. A Rua almirante Frontin, no bairro Country Club ficou enfeitada de bandeirolas, serviço de som, enfim, um dia de festa. Cem metros rasos a disputa entre o Peixinho e o coronel Cajarana. Tudo cronometrado. Foi usado o revolver 44, “bico largo”, pertencente ao Cabo Malvadeza para a partida, ao correrem de metros, o Coronel Cajarana cansou e sua peruca foi ao chão, sendo agarrada pelas presas do cachorro de nome Manchete, de dona Marlene, irmã de Peixinho. Cajarana teve que ir para o balão de oxigênio, perdendo a aposta, a peruca e a patente de Coronel.
Quem chega a Juazeiro, tem crédito, amizade e bons amigos, porquanto, os filósofos não gostam de arruaças.
Lembro-me que uma pessoa “inteligente” na cidade, quando foi cobrada por um comerciante: “amigo sua letra venceu”. O devedor com a flexibilidade de raciocínio que possui, respondeu: “Então eu ganhei, pois esperava o empate.” O credor, muito gentil, só fez quitar a letra e entregar ao devedor; não é uma filosofia?
Na política, quem não conhece o amigo Arnaldo Viera do Nascimento, ex-prefeito de Juazeiro? Educado e jeitoso. Sua casa comercial (visgueira política) fica a cinco metros da “viúva” (prefeitura) e o seu ranço para retornar ao executivo, ainda não acabou; cuidado porque ele é sabido e pode voltar ao trono!
        “Pode entrar”, não tenha cerimônia. Marlene (secretária) providencie uma cadeirinha para o amigo. “Entre, diga uma coisinha” Como vão as coisas por aí?  Fale.”  E assim são as ladainhas do Arnaldo, todos os dias. Uns passam a 200 quilômetros por hora por sua porta comercial, temendo os espiões politiqueiros; e, os mais corajosos, independentes, não se preocupam com as patrulhas delatoras. “Como vai você, há tempo que não o vejo; está chovendo por lá? Encheu o tanque? Sangrou o açude?” “Lá pra nós está tudo ruim, seu Arnaldo, pois os bichos estão passando sede.”
         “Seu Arnaldo, o que me traz aqui é que minha filha morreu de sezão e vim buscar um adjuntoro.” “Não se preocupe; Marlene ajeite o meu amigo; aceite meus pêsames” A que horas é o enterro? Pois pode me aguardar! Deus que a guarde no Reino da Glória!”
Geraldo Dias Andrade
Livro:  Minhas Percepções

(Digitado pela aluna Yanna Kaelen)