Antonila da França Cardoso
Mais uma vez a cidade volta a palpitar
com a passagem ruidosa de seus estudantes. As vias de acesso às escolas são
transformadas em enorme passarela, por onde desfila o azul-branco de seus
uniformes.
Com
aves palradoras, ei-los aos bandos, em sua, tagarelice, atraindo a atenção da
comunidade já preocupada com o retardamento das aulas.
Apressados, correndo contra os ponteiros do
relógio, crianças adolescentes buscam os portões de seus colégios. Entre risos,
abraços e saudações jubilosas, vão se encontrando, procurando, descobrindo e,
sem o perceber, elaborando uma coluna social onde registram ausências, nomes de
recém-chegados, transferências, casamentos e, com uma satisfação bem maliciosa,
destacam a ala dos calouros.
Estes, com seu ar tímido, receiam os
veteranos, temendo arriscar sua cabeça às “lixas” e “tendas” tão tradicionais e
destoantes. E só de longe apreciam as travessuras, com vontade mal contida de
participar das brincadeiras.
Ao soar da sirena, os discentes procuram
suas salas de aula, com a preciosa carga de novidades e experiências trazidas
das férias. Todos querem falar ao mesmo tempo, numa linguagem que revela as
mais novas gírias e as últimas piadas. Os diálogos se cruzam:
- Passou as férias onde?
- E o carnaval, brincou?
- Muita paquera?
- Ah, tenho uma legal pra lhe contar!
E o colóquio só se interrompe
momentaneamente com a entrada de um dos professores. Após a surpresa, nova
motivação agora é tema de seus cochichos:
- Ih! O professor deixou crescer o
bigode!
- Ela, outra vez? Pensei que íamos ter
nova professora nesta cadeira!
- Mudou o quê? O livro? Lá em casa vão
aprontar o maior rebu.
E esse primeiro dia comporta todo tipo de
assunto, menos a aula propriamente dita.
Com o retorno dos alunos, os pequenos
vendedores de pipocas, balas e picolés reencontrarão seus melhores postos de
venda nos portões do colégio, nos intervalos de recreação.
Ao fim do período letivo diário,
desassossegados, os comerciantes da Rua d’Apolo e Conselheira Saraiva irão
vê-los em grupos inquietos, buliçosos, indagadores invadir suas casas
comerciais, apreçando mercadorias que nunca levam.
Por longos dias, livres das convenções e
despreocupados da etiqueta, eles voltarão a cantar pelas ruas, a perturbar os
sossegos dos loucos, a interferir na rotina dos vendedores ambulantes, a agitar
a quietude de nossa cidade. Mas convenhamos que já estávamos com saudade de sua
animada algaravia.
E porque eles são a nota álacre der
nossas ruas, dizemos-lhe:
- Sejam bem- vindos, estudantes! Sua
jovialidade contagiante revitaliza Juazeiro.
Juazeiro,
1974
Do Livro:
Umas e Outras - Crônicas
(Texto digitado com a colaboração do Aluno Iago
Nunes)

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