quarta-feira, 9 de maio de 2012

De Volta Às Aulas


                                                               Antonila da França Cardoso

        Mais uma vez a cidade volta a palpitar com a passagem ruidosa de seus estudantes. As vias de acesso às escolas são transformadas em enorme passarela, por onde desfila o azul-branco de seus uniformes.
        Com aves palradoras, ei-los aos bandos, em sua, tagarelice, atraindo a atenção da comunidade já preocupada com o retardamento das aulas.
        Apressados, correndo contra os ponteiros do relógio, crianças adolescentes buscam os portões de seus colégios. Entre risos, abraços e saudações jubilosas, vão se encontrando, procurando, descobrindo e, sem o perceber, elaborando uma coluna social onde registram ausências, nomes de recém-chegados, transferências, casamentos e, com uma satisfação bem maliciosa, destacam a ala dos calouros.
       Estes, com seu ar tímido, receiam os veteranos, temendo arriscar sua cabeça às “lixas” e “tendas” tão tradicionais e destoantes. E só de longe apreciam as travessuras, com vontade mal contida de participar das brincadeiras.
       Ao soar da sirena, os discentes procuram suas salas de aula, com a preciosa carga de novidades e experiências trazidas das férias. Todos querem falar ao mesmo tempo, numa linguagem que revela as mais novas gírias e as últimas piadas. Os diálogos se cruzam:
       - Passou as férias onde?
       - E o carnaval, brincou?
       - Muita paquera?
       - Ah, tenho uma legal pra lhe contar!
       E o colóquio só se interrompe momentaneamente com a entrada de um dos professores. Após a surpresa, nova motivação agora é tema de seus cochichos:
       - Ih! O professor deixou crescer o bigode!
       - Ela, outra vez? Pensei que íamos ter nova professora nesta cadeira!
       - Mudou o quê? O livro? Lá em casa vão aprontar o maior rebu.
       E esse primeiro dia comporta todo tipo de assunto, menos a aula propriamente dita. 
        Com o retorno dos alunos, os pequenos vendedores de pipocas, balas e picolés reencontrarão seus melhores postos de venda nos portões do colégio, nos intervalos de recreação.
        Ao fim do período letivo diário, desassossegados, os comerciantes da Rua d’Apolo e Conselheira Saraiva irão vê-los em grupos inquietos, buliçosos, indagadores invadir suas casas comerciais, apreçando mercadorias que nunca levam.
        Por longos dias, livres das convenções e despreocupados da etiqueta, eles voltarão a cantar pelas ruas, a perturbar os sossegos dos loucos, a interferir na rotina dos vendedores ambulantes, a agitar a quietude de nossa cidade. Mas convenhamos que já estávamos com saudade de sua animada algaravia.
      E porque eles são a nota álacre der nossas ruas, dizemos-lhe:
      - Sejam bem- vindos, estudantes! Sua jovialidade contagiante revitaliza Juazeiro.

                                                                                            Juazeiro, 1974
 Do Livro: Umas e Outras  - Crônicas

(Texto digitado com a colaboração do Aluno Iago Nunes)

Nenhum comentário:

Postar um comentário