(sentoseemfoco.webnode.com.br/historia-e-fotos-juazeiro-ba)
O
Saudoso Apito De um Trem
Antonila da França Cardoso
Casualmente vimos, nesta
semana, a passagem de um dos velhos
trens da leste. Confessamos nem lembrar se eles ainda existiam. A máquina
desgastada, resfolegante, puxava um grande número de vagões que sacolejavam nos
trilhos. Paramos para olhá-lo, evocando um tempo de criança em que era comum
dar adeus aos que acenavam das janelas. Mas, para nosso espanto, não havia
pessoas nas janelas. Aliás, tivemos a impressão de que as classes estavam
vazias. E reparando bem, já não eram tantas como antes. Na maioria, vagões de
carga. Apenas um de passageiros. Sem querer, reportamo-nos aos dias áureos da
Rede Ferroviária leste Brasileiro em nossa região.
Juazeiro, terminal da linha
férrea para Salvador, desfrutava uma situação privilegiada. O antigo prédio de
nossa estação, um primor de arquitetura, majestoso, de frente para o rio,
impunha-se aos que visitavam nossa cidade. Grande e arejado, oferecia relativo
conforto a quem aguardava a chegada ou saída dos trens. A maior parte das
pessoas, no entanto, preferia esperar, andando pela plataforma por que temos
uma felicidade enorme de transformar qualquer local amplo em passeio público.
Domingo às 11 horas, era
chique passear na estação da leste, minutos antes da saída do trem. Moços, velhos,
crianças, todos os que iam viajar, numa só agitação, queriam ocupar os seus
lugares. E bem os passageiros não sentavam, já começavam os pedidos de favor:
uma carta para o noivo, um tecido "igualzinho a este da amostra" ,
óculos para trocar as lentes, uma pulsera ou um colar da moda, de tudo um
pouco. Mães cuidadosas levavam cestas ou caixas com doces, biscoitos e frutas
para seus filhos que estudavam na Bahia. (Inexplicavelmente naquela época, nenhum
interiorano se referia à capital como Salvador!) É verdade que nem sempre tais
incumbências eram levadas a sério, e muitas são as anedotas que a esse respeito
os estudantes daquela época podem contar, mas ao final tudo terminava entre
risos.
O apito do chefe da estação
apressava as últimas recomendações, lembranças, despedidas. Com um silvo
sentido, o maquinista fazia mover a locomotiva. Primeiro indecisa, relutante,
como se não quisesse ir; depois decidida e impetuosa, afinal. Atrás dela, como
enorme serpente ondulante, o corpo de vagões de carga, correio, funcionários,
restaurante, segunda e primeira classes, beliches, camarotes. Preços para
atender a todos os gostos e possibilidades. Desaparecendo na curva, ainda se
podia ver, à distância, um sem número de lenços e mãos agitando adeuses nas
janelas. A fumaça da locomotiva deixava no céu um rastro de saudade . E a
multidão se dispersava satisfeita, com ares de quem cumprira agradável dever.
À tarde repetia-se
inversamente o mesmo espetáculo. O apito soava em Piranga e era o tempo
necessário de as pessoas saírem apressadas para a estação. A maior parte dos
presentes não esperava pessoa alguma, em particular. Ia assistir à chegada do
trem, receber o jornal da véspera, informar aos passageiros as últimas
novidades, tomar conhecimento dos novos visitantes e das notícias. Por muitos
anos, aos domingos e quintas-feiras, esse foi um programa quase obrigatório na vida
do juazeirense.
Certa feita, como uma bomba,
explodiu uma notícia espantosa: "A leste ganhou um trem expresso. Ele faz
o percurso Juazeiro - Salvador no mesmo dia!" Muita gente não acreditou
possível esta façanha. A chegada do primeiro expresso constituiu fato
histórico, com quase toda a população urbana esperando na estação para ver e
crer. E a máquina que era capaz de vencer tão grande distância em um único dia
foi assunto para muitas semanas. Por ser colorida e charmosa mereceu logo o
apelido de "Marta Rocha".
Superadas as maçantes
baldeações e as dormidas em Senhor do Bonfim, afastada e perspectiva das
viagens noturnas, temerosas para tantas pessoas, os trens receberam novos
usuários, confiantes, entusiastas.
Tudo ia muito bem até o dia em
que o progresso fez surgir uma rodovia asfaltada entre nossa cidade e a capital
baiana. Tornou-se factível realizar a enfadonha viagem em apenas sete horas, de
ônibus ou em cinco, de automóvel. Isso determinou o declínio da Leste em nossa
região.
Hoje, pouco utilizada, meio
esquecida dos juazeirenses, a velha Rede Ferroviária Leste Brasileiro para nós
só existe na evocação do saudoso apito de um trem.
Juazeiro, 1974
Livro: Umas e Outras Crônicas
Livro: Umas e Outras Crônicas
(Texto digitado pela aluna Micaela)

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